“Dra., o filho da minha amiga tem a mesma idade e já fala várias palavras. O meu ainda não. Preciso me preocupar?”
Essa é uma pergunta muito comum no consultório. E antes de falar sobre idades ou quantidade de palavras, existe uma informação que gosto que os pais entendam:
A comunicação do bebê começa muito antes da primeira palavra. Antes de dizer “mamãe” ou “papai”, existe todo um caminho sendo construído.
O bebê observa rostos, reconhece vozes, reage aos sons, balbucia, troca olhares, começa a compreender palavras e utiliza gestos para se comunicar.
Por isso, quando avaliamos o desenvolvimento da linguagem, não devemos olhar apenas para quantas palavras uma criança fala. Precisamos olhar para a criança como um todo.
A fala começa antes de o bebê falar
Desde os primeiros meses, o bebê já está construindo habilidades necessárias para a linguagem.
Quando você conversa com ele e ele observa seu rosto, por exemplo, existe uma interação acontecendo. Depois surgem os sorrisos sociais, as vocalizações e os diferentes sons. Mais adiante, aparecem os balbucios.
O bebê também começa a reconhecer o próprio nome, prestar atenção ao que as pessoas falam e compreender palavras e comandos simples. E então chegam os gestos e as primeiras palavras.
É um processo progressivo.
A palavra é uma parte visível de algo que o cérebro já vem construindo há muitos meses.
Quais são as fases do desenvolvimento da linguagem?
Embora exista variação entre as crianças, alguns comportamentos ajudam o pediatra a acompanhar como a comunicação está evoluindo.
Nos primeiros meses
O bebê começa a demonstrar interesse por vozes e rostos.
A comunicação acontece principalmente através do choro, do olhar, das expressões e, progressivamente, das vocalizações. É também nessa fase que as interações entre bebê e cuidador começam a ganhar cada vez mais importância.
Por volta dos 6 meses
Os sons começam a ficar mais variados e o balbucio ganha espaço. O bebê experimenta a própria voz e pode começar a repetir diferentes sons. A interação também fica cada vez mais evidente: ele observa, vocaliza e espera a resposta do adulto.
É quase como uma primeira forma de conversa.
Entre 9 e 12 meses
A comunicação intencional começa a ficar ainda mais evidente. O bebê pode usar gestos, como apontar, dar tchau ou levantar os braços para pedir colo. Também começa a compreender algumas palavras e comandos simples dentro da rotina.
E, próximo ao primeiro aniversário, algumas crianças começam a falar suas primeiras palavras com significado.
Entre 1 e 2 anos
O vocabulário começa a aumentar progressivamente. A criança aprende novas palavras, passa a utilizá-las para pedir, mostrar ou chamar alguém e, ao longo dessa fase, começa a combinar palavras.
A compreensão também evolui bastante. Ela entende cada vez mais aquilo que é dito ao seu redor.
Entre 2 e 3 anos
O vocabulário começa a aumentar progressivamente e a linguagem costuma ganhar uma expansão importante.
As combinações de palavras evoluem para pequenas frases, o vocabulário aumenta e a criança começa a conseguir contar pequenas experiências, fazer perguntas e expressar melhor suas necessidades. A fala também tende a se tornar progressivamente mais compreensível.
Mas existe um ponto fundamental: essas etapas não funcionam como uma competição ou um cronômetro.
Por que não devemos comparar a fala das crianças?
Porque existe uma faixa de variação no desenvolvimento.
Uma criança pode desenvolver determinadas habilidades antes de outra sem que isso signifique que seja “mais inteligente” ou que a outra necessariamente tenha algum problema.
É muito comum ouvir:
“Mas o irmão falou antes.”
“O primo da mesma idade já conversa.”
“A filha da minha amiga sabe muito mais palavras.”
Essas comparações frequentemente aumentam a ansiedade dos pais e não substituem uma avaliação individual. Em vez de comparar uma criança com outra, precisamos acompanhar a trajetória daquela criança.
Ela está adquirindo novas habilidades? Está tentando se comunicar? Compreende o que falamos? Interage com outras pessoas? Utiliza gestos? Responde aos estímulos?
Essas informações são muito mais relevantes.
Como os pais podem estimular a linguagem no dia a dia?
Uma das melhores formas de estimular a linguagem é também uma das mais simples: converse com seu filho. Não é necessário transformar a casa em uma sala de estimulação.
A linguagem pode ser construída dentro da própria rotina:
• Durante o banho, conte o que vocês estão fazendo;
• Na hora de trocar a roupa, nomeie as partes do corpo;
• Durante a refeição, fale sobre os alimentos;
• Quando estiverem brincando, descreva objetos, ações e sentimentos.
• Leia histórias. Cante. Faça perguntas.
E, principalmente, dê espaço para a criança responder à sua maneira. Mesmo antes de falar, ela pode responder com um olhar, um sorriso, um gesto ou um som.
A comunicação precisa ser uma troca.
E as telas? Elas ajudam a criança a falar?
Esse é um ponto muito importante.
Vídeos educativos não substituem a interação humana. A criança aprende linguagem principalmente por meio da troca com outras pessoas: ouvindo, observando expressões, respondendo, esperando respostas e participando de interações reais.
Por isso, não devemos enxergar celular, tablet ou televisão como ferramentas necessárias para ensinar um bebê a falar.
Especialmente nos primeiros anos, a presença e a interação com os cuidadores são muito mais valiosas.
Quando a demora para falar merece atenção?
Aqui precisamos tomar cuidado com dois extremos.
O primeiro é comparar excessivamente e transformar qualquer diferença em problema. O segundo é acreditar que sempre devemos simplesmente esperar.
Existem situações em que uma avaliação é importante e estes são alguns sinais que merecem ser conversados com o pediatra incluem:
- pouca resposta aos sons ou à voz dos cuidadores;
- não responder ao próprio nome de forma consistente;
- pouco contato ou interesse comunicativo;
- ausência ou pouca utilização de gestos comunicativos;
- dificuldade para compreender comandos simples esperados para a fase;
- ausência de progressão da linguagem;
- perda de palavras ou habilidades que a criança já havia adquirido.
A perda de habilidades já adquiridas deve sempre ser valorizada e avaliada.
Também é importante lembrar que dificuldades de linguagem podem ter diferentes causas. Audição, desenvolvimento global e outras características precisam ser consideradas.
Por isso, diagnóstico não deve ser feito através de comparações ou de vídeos nas redes sociais.
“Meu filho ainda não fala. Devo esperar?”
Não existe uma resposta única. Depende da idade da criança, das habilidades que ela já desenvolveu, da compreensão, da comunicação não verbal, da audição, da interação social e de diversos outros aspectos.
É justamente por isso que o acompanhamento pediátrico é tão importante. Durante as consultas de rotina, não avaliamos apenas peso e altura. Também acompanhamos como a criança está se movimentando, brincando, interagindo, compreendendo e se comunicando.
Quando existe alguma dúvida, podemos avaliar com mais cuidado e, se necessário, encaminhar para outros profissionais.
Cada criança tem seu tempo, mas desenvolvimento precisa ser acompanhado.
Eu gosto muito de dizer aos pais que respeitar o tempo da criança não significa deixar de acompanhar o desenvolvimento.
Não precisamos transformar cada marco em uma corrida. Mas também não precisamos esperar indefinidamente quando existem sinais que merecem atenção. Entre esses dois extremos existe o acompanhamento.
Observar, conversar, estimular de forma natural. E procurar orientação quando alguma coisa trouxer dúvida.
Porque mais importante do que descobrir exatamente em qual dia seu filho vai falar a primeira palavra é garantir que todo o processo de comunicação esteja sendo construído de maneira saudável.
Quando procurar o pediatra?
Se você tem dúvidas sobre a fala, a comunicação ou qualquer outro aspecto do desenvolvimento do seu filho, converse com o pediatra.
Uma avaliação individual permite entender a criança dentro da própria história e identificar se o desenvolvimento está evoluindo conforme esperado ou se existe necessidade de uma investigação complementar.
Na Clínica Consorte, acompanhamos cada fase do desenvolvimento infantil considerando a criança como um todo e respeitando sua individualidade.

Perguntas frequentes sobre desenvolvimento da fala (FAQ)
Com quantos meses o bebê começa a falar?
As primeiras palavras com significado costumam surgir por volta do final do primeiro ano, mas existe variação individual. O desenvolvimento da comunicação, porém, começa muitos meses antes.
Balbuciar faz parte do desenvolvimento da fala?
Sim. O balbucio é uma etapa importante do desenvolvimento da comunicação e da linguagem.
Como estimular o bebê a falar?
Conversar, cantar, ler histórias, nomear objetos e responder às tentativas de comunicação são maneiras simples de favorecer o desenvolvimento da linguagem no cotidiano.
Tela ajuda o bebê a aprender a falar?
A interação com outras pessoas é fundamental para o desenvolvimento da linguagem. Conteúdos em telas não substituem conversas, brincadeiras e interações reais com os cuidadores
Quando devo me preocupar com a fala do meu filho?
Não existe apenas um sinal isolado. Ausência de progressão da comunicação, pouca resposta aos sons, dificuldades de compreensão, pouca comunicação gestual ou perda de habilidades já adquiridas são exemplos de situações que devem ser discutidas com o pediatra.


